Cachorros das ruas/ Leila Yatim (Trad.)

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I
Polvo
Dente do rato
Pego no flagra
Ato escuro antigo
Radicalmente imoral
Que marcou
Toda minha vida
Colher dos frutos
Na outra vida sempre
Colado ao teu corpo
E sem mãos
“Tanto milho jogado
E eu sem bico”
Velho, ancião
Desde a tenra infância
Cheio
Por qualquer mesquinhez
Satisfeito e até feliz
Diante de qualquer migalha
Se minha vida foi
Já nada foi
Somente agora
Radiante e constante
A que te pego
Leitor
A que te pego
Alicate tesoura martelo
Para penetrar a lata

II
Uma linda cidade
Apareceu esta manhã
Na minha janela
A observo como um gato
Observa ao rato
Salta a linda
E não para chamar minha atenção
Dá curtos rodeios
Morre sozinha do susto
Do susto apenas morre
Quieta permanece
Diante da minha janela
Sem habitantes sem vida salva
Em sua circulação de trânsito
Em sua deslumbrante e eterna manhã
Como eternos são meus olhos
E minhas mãos de polvo
E meu olhar de gato
E meu corpo colado ao teu
Impotente e estéril
Diante de sua beleza de alfinetes
De afogamento de lágrimas
Já incontidos

III
Dou de beber ao filhote
Que sou
Ao cachorro da rua
Fumaça aromática das cidades
Única alma justa
Pela qual não se incomoda
Esta pecaminosa cidade
Cachorro que fareja todos os dias
Nossas almas
E por isso vai de cabeça baixa
E com vergonha alheia
Nos outorga seu perdão
Enquanto a TV segue dando
Conselhos de vida
De voz cheia
E o pobre predicador
Passa calor pelo seu paletó
Tanto por andar cheio de fé
Para de sofrer Jesus Cristo vem
Cristo te ama
E as flores intocadas e intocáveos
Dos galhos mais acima
Das árvores
Onde os anjos se entretem
Diminutos anjos
Das cidades subdesenvolvidas
Disso dão fé.

IV
Sob a voz enfim
Não há uma nuvem mais
Neste quadrinho
Me retraio
Como o polvo
Como o gato entediado
Que sou
Como o rato
Que guarda seu dente
Para maio.

Anjos da sombra
E anjos da luz
Fazem migalhas
Sobre o caixilho
Da minha janela
Sobre a moldura
Que é esta cidade.

Não nos separa apenas
A cor da pele
Mas também o coração
Mas são anjos todos.
Cachorros vagabundos
Tolerantes com nossa humanidade.
Cachorros das ruas.

Leila Yatim. Estudante de Relações Internacionais, na UNILA. Brasil.
Poema leído ayer en el contexto del Salão Internacional do Livro em Foz do Iguaçu.

Puntuación: 5 / Votos: 4

Comentarios

  1. Maurício Eloy escribió:

    A espera

    "Queria voar no meu pequeno quarto, mas meus braços são curtos, e meus olhos alcançam apenas o chão. A luz suave da fresta da porta toma apenas os dedos de meus pés – Queria voar nem que fosse um pouquinho. Meus pensamentos são constrangedores, então eu sopro, imaginando o meu ar a ganhar o mundo desprovido de vivência, voar sem volta. Enquanto isso eu espero pelo sonho sem saber se ele vem.”

    Maurício Eloy
    12/05/2012
    11:14

  2. Maurício Eloy escribió:

    O tempo extravagante gera às vezes em seu ventre anos diferentes

    Dias brancos, surpresos e inúteis devastam a carne daqueles que só ouvem na quietude disfarçada de piedade a margem da razão…
    O silêncio incomoda com vigor destemido diante da certeza do olhar…
    Duvido da paisagem que apodera de meus olhos…
    Duvido da história que me fascina e encanta meu pensamento…
    Duvido da poesia, já que ela me faz ver o mundo em detalhes…
    Duvido da arte, porque a arte sou eu e não sou…
    Duvido da felicidade carregada de alegoria que parece nossa, do mundo…mas nos sopra mansamente no instante…
    Duvido de minha vida…do barulho, do devaneio, do tempo do meu tempo…
    Duvido de mim….
    Será que a ingenuidade e a inocência dos “tempos maquinários” que vivemos enfraquecem o espírito?
    O encanto reside em aceitar a vontade de se encantar…e quando se encanta o mundo vive..
    Na tarde que seu sorriso era meu…não duvidei dele, levei comigo e ficou…
    Meu tempo com você no instante do dia é a verdade de querer viver você em mim…
    Extravagante modernidade me pede água. Meus anos não são nada se o instante me apodera da vontade de te ver como metade de mim…
    Felicidade me abrace sem medo, não como vicio, mas na mistura de querer que o encanto se apodere de mim, e olhar nos detalhes de que viver é guardar o sorriso que levo comigo o sorriso dela que naquela tarde se despiu em mim…

    Eloy
    17/10/2011
    22:39

  3. Maurício Eloy escribió:

    “Sem chão” Elogio a superficialidade

    Maltrapilhas utopias misturadas na verdade dos olhos cansados de luzes distantes,
    outras vezes próximas a vontade ingênuas acaloradas de vaidades barulhentas…
    – O corpo adormecido no tempo…

    Só o silêncio me acomoda e minha pele que é igual a todas ri…
    – Vivi mais um pouco

    Lágrimas calejadas de disfarces são desenhos do mundo perdido sem chão,
    ali logo na esquina já existe a ilusão carregada de cores…
    – Todos passam por lá.

    Serenidade, ela à nossa frente com passos lentos de texturas sedutoras ou abafadas de esperanças…
    – Olhar e não sentir.

    Que máquinas são essas distorcidas à verdades traduzidas de imaginação perene junto as letras perdidas…
    – Maquinários disfarçados de brisa.

    O bilhete contém uma letra, e o que se lê é a melodia arquivada no corpo lançado no mundo acomodado de vestígios…
    – O instante é a certeza do ser.

    A terra é meu corpo despido de silêncio acostumado com os sonhos dentro do mundo, e se o som de minha voz se calar…os meus olhos serão a vastidão de certezas e minha pele registro do existir em que a única verdade sou eu mesmo…

    Eloy
    11/10/2011
    01:31

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